Como pesquisar de forma eficiente


Estudar é muito importante e mesmo assim a gente não é instruído a aprender a estudar. Da mesma forma, na academia o processo de pesquisa também é muito importante e é bem difícil encontrar informações sobre as habilidades necessárias para conduzir um projeto de pesquisa de forma eficiente.

Qual a parte mais difícil da vida acadêmica? Não é simplesmente a carga de trabalho pesada e as demandas elevadas. O problema é que muitos estudantes não possuem métodos eficientes para trabalhar da melhor maneira possível — Grand School Esssentials

Encontrar informações sobre o processo de pesquisa também é uma tarefa difícil porque cada área tem necessidades de pesquisa diferentes (um pesquisador de humanas trabalha de forma diferente de um pesquisador de exatas, por exemplo). Na busca por mais informações sobre o processo de pesquisa encontrei o livro Grad School Essentials: A Crash Course in Scholarly Skills. O foco do livro é em estudantes de Ciências Sociais, mas mesmo eu sendo de Computação todos os conselhos do livro fizeram sentido para minha pesquisa.

Eu nem sou pesquisador, pra que eu quero aprender sobre isso?

A melhor parte disso tudo é que essas habilidades não são apenas valiosas na academia. Consumir, analisar e apresentar informações são atividades corriqueiras no ambiente de trabalho, certo? O objetivo do livro é ensinar formas de realizar essas atividades de maneira mais eficiente. Além de poupar tempo, desenvolver essas habilidades pode aumentar a compreensão e a análise dos problemas, duas coisas bem importantes ao se pensar em sucesso profissional.

Tá, e que habilidades são essas?

Qualquer pesquisador da academia precisa adquirir cinco habilidades:

  • Como ler
  • Como escrever
  • Como falar
  • Como se portar
  • Como pesquisar (a melhor parte)

O livro é curto (tem só 160 páginas) mas as informações são muito valiosas, posso dizer que mudou muito a forma como eu venho conduzindo minhas tarefas (tanto como cientista de dados como estudante de mestrado).

Agora vamos falar sobre cada um dessas habilidades.

📖 Como ler

O ponto principal aqui é: não existe tempo suficiente para ler tudo o que você quer ler. Então a habilidade que precisa ser adquirida não é speed reading, é aprender a selecionar o que ler. Para isso a gente precisa mudar a forma de ler os textos.

Um problema comum é passar 20 min lendo um livro e depois perceber que você não faz ideia do que está lendo. A solução pra isso é adotar uma postura ativa durante a leitura. Como?

  • Lendo o título do livro/artigo e criando suposições sobre o que o autor quer comunicar
  • Ler o índice ou os sub-tópicos e também fazer suposições sobre o que o autor que comunicar
  • Ler a conclusão primeiro (!)
  • Finalmente ler a introdução (!) (sim, depois de ter lido a conclusão)
  • Escrever o que você acha que o autor quer comunicar (esse processo de síntese é ótimo)
  • Decidir se vai ler ou não o artigo

É importante notar que esse método deve ser usado quando a gente precisar ler para encontrar a tese do autor do texto. Ao ler pelo conteúdo (ou seja, ler para aprender) precisamos realmente ler tudo e com mais afinco. Mas mesmo assim, os passos da postura ativa (se engajar e fazer suposições sobre o que você está lendo) ainda são imprescindíveis para os dois casos.

Em artigos, outra técnica é decidir que parágrafos ler, a partir da leitura da primeira frase (se for interessante continuar lendo o parágrafo, se não for pular para o próximo). O autor fala que no início a gente vai perder informações importantes ao utilizar a técnica, mas com a prática conseguimos aprender melhor como selecionar o que ler.

Extra: como criticar textos

Um bom meio de demonstrar como você raciocina é a partir da forma como você critica o que lê. E criticar não é simplesmente dizer se você gostou ou não de um texto.

O objetivo da crítica é demonstrar seu olhar crítico sobre o que foi lido.

“Uma crítica é uma análise dos argumentos do autor. É um teste rigoroso sobre a solidez da tese. De forma geral, ou os argumentos se sustentam, ou eles não se sustentam, ou a maioria deles se sustentam e alguns não. Seu trabalho é determinar os pontos fortes e fracos do trabalho” — Zachary Shore

E o que a crítica não é? Não é um resumo e principalmente não é uma reclamação. O autor enfatiza ainda que é muito tentador criticar um autor por algo que ele não fez. É tentador porque é muito fácil.

Se o autor escreveu sobre a turbulência política no Quênia, você ouvirá seus colegas criticarem o autor por não ter discutido a turbulência na Tanzânia, ou na Somália, ou além. Estas críticas são críticas sem valor — Zachary Shore

Um livro ou um artigo é por definição o resultado de um esforço delimitado. O autor precisa definir limites sobre o que abordar. O único caso onde criticar o autor por algo que ele não fez oferece algum valor é quando a omissão do autor drasticamente distorce o entendimento do argumento que está sendo feito.

Aprender a criticar se torna algo muito mais importante após o período da graduação. Durante essa fase quase todo conteúdo que a gente consumia já era bastante sólido e aceito pela academia. Quando paramos de ler apenas livros-texto e passamos a ler mais artigos, existe a possibilidade da tese do autor não se sustentar. Devemos sempre estar atentos para observar quando isso pode acontecer.

✍🏾 Como escrever

Ao escrever a sua missão é “segurar o leitor pela mão” e guiá-lo na jornada que você passou até chegar na sua tese. Na escrita acadêmica o principal objetivo é ser claro. Tentar escrever de forma pomposa não convence ninguém, o ideal é sempre ir direto ao ponto. Para se aprofundar mais sobre como escrever o livro Writing Science: How to Write Papers That Get Cited and Proposals That Get Funded é o melhor que eu já li sobre o assunto.

🗣 Como falar

Nessa parte o autor fala sobre como criar apresentações. Esse tópico já é bem abordado por ai, então não encontrei insights novos aqui. De forma geral:

  1. Articule brevemente seus dois objetivos principais
  2. Utilize uma fórmula para estruturar suas apresentações

🎓 Como se portar

Fazer parte da academia pode mexer muito com seu ego. Muitos estudantes tendem a adotar o que eles acham ser uma “persona intelectual” por sentirem a pressão de parecerem brilhantes. Em geral: eles se tornam posers, sempre tentam usar muitos jargões e mostrar que eles sabem mais do que as outras pessoas.

Pense: por que cargas d’água você estaria estudando se você já sabe de tudo? Por favor pessoal: vocês estão aqui para aprender — Zachary Shore

O autor enfatiza que o objetivo não é que a gente aja como idiota. O que ele quer dizer é que não há razão para ser poser. Se você não sabe algo, sempre pode olhar na Wikipedia ou pedir ajuda a alguém. “Não existe vergonha na ignorância. Existe apenas vergonha em continuar ignorante por medo de se expor”.

🔍 Como pesquisar

Chegamos na parte mais importante e que é menos discutida no ambiente acadêmico: como desenvolver a pesquisa.

Primeiro a gente precisa saber a diferença entre o tópico, a pergunta e a resposta da pesquisa, que chamamos de tese. O tópico é a área geral de investigação. O autor comenta que muitos estudantes cometem o erro de achar que o tópico é o assunto sobre o qual eles vão escrever. Não é. Você vai escrever sobre uma pergunta e está em busca de uma resposta para ela.

A pergunta é o que guia sua pesquisa. “É o que te faz acordar de manhã e o que te faz pular da cama no meio da noite para anotar uma ideia.” Já a resposta é a sua tese. Resumindo:

  • Tópico: a área da sua pesquisa
  • Pergunta (research question): o guia da sua pesquisa, o assunto que você vai escrever sobre
  • Resposta: a sua tese

O papel do pesquisador é encontrar a verdade. Seu objetivo não é provar que você está certo. Por isso nunca comece uma pesquisa com uma conclusão em mente, deixe o processo de pesquisa te levar até uma conclusão.

Componha sua pergunta (o que você vai responder com a tese) em 8 palavras ou menos. Assim é mais fácil de divulgar e definir os próximos passos da pesquisa. E principalmente: deixa as perguntas guiarem as suas referências. No desenrolar da pesquisa você vai percebendo que encontrou novas questionamentos necessários para te levar até a resposta. Tudo que você for lendo deve ser guiado por essas perguntas.

Quanto a escolha do tema, escolha algo que te deixe curioso e com vontade de pesquisar, porque o processo é bem árduo e no fim é isso que vai te fazer continuar até o final.

Uma tese de mestrado tipicamente precisa demonstrar que o autor domina o assunto, conhece a literatura do tópico e analisou um problema particular da área. Na tese de doutorado o exigido é que se faça uma contribuição original para o entendimento de um determinado problema.

Por fim, faça um link entre sua tese e algo maior. Você deve ser capaz de mostrar a razão pela qual seu trabalho importa. Por quê? Porque você vai precisar de investimento para a pesquisa ou vai precisar mostrar porque ela foi importante caso queira encontrar um emprego. O autor enfatiza que se você não consegue dizer porque a sua pesquisa realmente importa (ou seja, se você não consegue relacionar a pesquisa com um desafio maior) você deve parar a pesquisa imediatamente e encontrar algo que realmente importe (para você e para a sociedade).


Eu não posso garantir que todos os meus métodos vão funcionar para você. Apenas um charlatão poderia prometer isso. Eu posso dizer que esses métodos funcionaram extremamente bem comigo e com muitos estudantes que eu orientei. Então teste-os, adapte-os as suas necessidades e descarte o que não funciona para você — Zachary Shore

Como o próprio autor fala, nem todos os métodos vão funcionar para todos os estudantes. Posso dizer que deixar as perguntas guiarem as referências revolucionou completamente o andamento da minha pesquisa, e selecionar o que ler de forma mais crítica também vem me ajudado bastante.

E você, como conduz suas pesquisas? O que achou das dicas do autor? Faz sentido? Adoraria discutir mais sobre isso 🙂

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